Morre Amadeu Felipe, um dos últimos combatentes da Guerrilha do Caparaó - Rádio PC do B

Morre Amadeu Felipe, um dos últimos combatentes da Guerrilha do Caparaó

 

Morreu em Londrina onde residia, Amadeu Felipe da Luz Ferreira aos 85 anos filiado ao PCdoB, causado por antigos problemas de saúde.

Meu ex comandante, amigo, camarada Amadeu Felipe, que comandou a resistência em Caparaó, vez por outra contava que o movimento não nasceu por acaso.

Na década de 60 ele era reflexo da indignação dos sargentos do Exército, aeronáutica e Marinha que não admitiam o golpe militar -feito com o apoio da elite brasileira. Dizia ele: ”Nós começamos a nos mobilizar antes mesmo do golpe. Mas foi em 1964 que nos reunimos mais fortemente. Em 64, travou a evolução da história econômica do Brasil. As reformas de base ficaram paradas. Fomos presos, nos foi cerceado o direito a atividade política. Tentamos derrubar a ditadura por todos os meios possíveis e a resistência em Caparaó foi o ápice do nosso movimento”, contava Amadeu Felipe.

Militamos juntos no velho Partidão desde a década de 70, foi meu amigo, camarada e comandou minha campanha para deputado federal.

Ele (Amadeu) era um homem de muita força moral, foi um bravo companheiro um grande camarada.

Amadeu Felipe – Presente!

Cláudio Ribeiro (jornalista)

Secretário de Cultura do PCdoB

 

Comandante Amadeu Felipe

A Guerrilha de Caparaó, ocorrida entre fins de 1966 e início de 1967, foi provavelmente o primeiro movimento no país de resistência armada à ditadura. O cenário de tal movimento, a região do Parque Nacional do Caparaó, localizado na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, era considerado um ponto estratégico, havendo indícios de que grupos de esquerda já haviam realizado estudos de reconhecimento para a implantação de focos guerrilheiros ainda no governo João Goulart e logo após o golpe de 1964: Informações de que o local havia sido estudado para a implantação do foco com militantes das Ligas Camponesas desde de 1963 e que a POLOP tentou fazer aí em 1964, depois do golpe, com sargentos e marinheiros, mas o plano foi abortado”. Um dos líderes da Guerrilha de Caparaó, Amadeu Felipe também afirmava que a região já havia sido explorada por outros movimentos: “A ‘POLOP’ (Política Operária) não deu apoio à Guerrilha, mas simplesmente cedeu a área, porque não tinha condições de explorá-la. Eles tinham um trabalho feito lá…” Apesar do envolvimento de alguns civis ligados a organizações de esquerda, os integrantes da Guerrilha eram em sua maioria militares, principalmente ex-sargentos e marinheiros que participaram das manifestações em favor das reformas de base no governo de João Goulart. O movimento ainda contava com o apoio do ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, na época exilado no Uruguai. Brizola havia tentado resistir ao golpe assim que este ocorreu, mobilizando políticos e militares fiéis à Jango. Entretanto, com a desistência do presidente de resistir ao golpe de Estado, o ex-governador embarca para o país vizinho de onde passa a tramar uma reação armada ao grupo que havia se usurpado o poder. É no exílio que Brizola mantém contato com o governo cubano, conseguindo dinheiro e o envio de homens ao país no intuito de realizarem o treinamento guerrilheiro. Cinco integrantes da Guerrilha de Caparaó teriam realizado o treinamento em Cuba.

A guerrilha do Caparaó teve repercussão internacional junto com movimentos parecidos em outras partes do mundo (Congo, Bolivia) e suporte financeiro (Cuba) e organização externa (Uruguai). Nos primeiros anos do regime militar, especialmente durante o governo do General Castelo Branco, ainda havia uma tentativa de dar uma aparência de legalidade e democracia ao regime: existiam eleições indiretas, a Câmara dos Deputados e o Senado aparentemente legislavam democraticamente, e a repressão ainda era mais branda, principalmente no tocante aos organismos de repressão.
Logo após o golpe, nos primeiros meses de 1964, houveram choques violentos entre o regime e seus opositores.

Mas a partir de 1965 até 1968, com a decretação do AI-5, houve um período de uma razoável estagnação e desarticulação política dos mecanismos contrários ao regime. As primeiras tentativas de insurreição partiram de ex-militares (guerrilha do Cel. Jefferson Cardim) e de duas tentativas de levante no Rio Grande do Sul (retratadas no filme) organizadas por Leonel Brizola. No exílio no Uruguai, primeiro em Montevideo e posteriormente no balneário de Atlântida, Brizola coordenou as primeiras tentativas organizando a massa de ex-militares expurgados e outros exilados políticos que foram se refugiar no país vizinho. Conseguiu apoio financeiro de Cuba através de seu enviado, o ex-deputado Neiva Moreira e da ajuda da AP (Ação Popular) de Herbert de Souza, o Betinho; tornando-se assim uma das principais figuras políticas brasileira de oposição no exílio.
No Uruguai Brizola foi procurado pelo grupo de ex-sargentos comandado pelo camarada do PCdoB  Amadeu Felipe da Luz Ferreira, que foi sargento do exército, nascido em Santa Catarina, membro do partido e ativista político desde a luta pela constitucionalidade em 1961 pela posse de Jango. Amadeu buscava apoio para algo que vários ex-sargentos planejavam desde que foram expurgados e presos após o golpe: a guerrilha rural. A princípio Brizola não apoiava a ideia, mas depois dos fracassos dos levantes gaúchos, decidiu apoiar a iniciativa financeiramente.

 

Brizola agregou a seus mais próximos colaboradores como Paulo Schiling, Flavio Tavares e Neiva Moreira; um grupo de marinheiros expurgados, e criou o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), com uma base de apoio no Rio de Janeiro, comandada pelo professor Bayard De Marie Boiteaux, ex-dirigente do Partido Socialista Brasileiro. Viabilizou o envio de 22 combatentes para treinamento em Cuba e após uma tentativa fracassada de instalação da guerrilha em Criciúma viu o primeiro foco de guerrilha rural do Brasil ser implantado na Serra do Caparaó.

Porém, com a demora em definir uma ação, e com a aproximação entre Cuba e Mariguella (Fidel preferiu dar apoio a este último); o movimento perdeu força política e auxílio financeiro, deixando praticamente os guerrilheiros abandonados a própria sorte no alto da Serra. Quando foram presos pela Policia Militar de Minas Gerais, os guerrilheiros estavam em crise interna entre sargentos do exército e marinheiros, famintos e doentes. Através dos interrogatórios e da prisão do grupo do Rio a base carioca foi rapidamente desmantelada e, para proteger Leonel Brizola, o falecido Professor Bayard Demarie Boiteaux confessou ser o líder do movimento.

 

 

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